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Beatriz Domeniconi

Tecnologia e produção sustentável

| 28.04.18 - 14:45
Historicamente, em todas as regiões no mundo, a produção de alimentos em quantidade e qualidade adequadas à demanda sempre foi uma preocupação social e de suas representações. Grupos de técnicos, produtores e pesquisadores, bem como comerciantes e governos sempre se organizaram, cada um à sua moda, para discutir sistemas e soluções que minimizassem o risco, sempre presente, da escassez de alimentos.

Quase todas as ciências estudadas foram, de certa forma, influenciadas pela razão implícita de garantir a segurança alimentar. Ocupação estratégica de territórios, relações políticas e comerciais, técnicas de cultivo, sistemas de captação e condução de água. A ciência de criar e cultivar incentivou o desenvolvimento de diversas tecnologias e hoje se beneficia, também, daquelas que se desenvolveram em áreas diversas de conhecimento.
 
Atualmente, no Brasil, há uma gama variada de tecnologias aplicáveis à produção de alimentos em diferentes esferas desde o campo, passando pelo processamento, transporte e armazenamento. Muito se investe em técnicas modernas de cultivo, material genético de plantas e animais, maquinário agrícola de última geração, técnicas de processamento e estudos econômicos avançados para que a comercialização dos produtos seja garantida da maneira mais lucrativa aos elos da cadeia.
 
Mais recentemente e também presente em diversas regiões do mundo, nova preocupação tem direcionado pesquisas e condutas daqueles que atuam nas cadeias de produção de alimentos: o impacto desta produção no meio ambiente e na manutenção de recursos naturais – o desafio da produção sustentável. Desta preocupação derivam estudos sobre emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE), quantificação das áreas desmatadas em florestas tropicais, redução na vazão dos rios, e também derivam as linhas mais radicais que preconizam a redução ou mesmo a interrupção de algumas produções mais relacionadas aos impactos ambientais.
 
A pecuária, por ocupar grandes áreas e por ser uma atividade pioneira na ocupação territorial estando assim, diretamente relacionada à abertura de áreas nativas, é uma das atividades mais acusadas pelos grandes e negativos impactos ambientais. Por isso, organizações sociais, empresariais e governamentais têm buscado estabelecer princípios e critérios para a criação de bovinos que minimizem os efeitos negativos do sistema.
 
Não se pode considerar que tais acusações sejam infundamentadas, pois no Brasil a pecuária é basicamente explorada em sistemas de pastagens e, devido a falhas no manejo, baixa capacidade de investimento e dificuldades de acesso a tecnologias, grande parte dessas pastagens está degradada.
 
Fato é que pecuária não é sinônimo de “boi emitindo GEE”. Pecuária não é “área de floresta desmatada e subutilizada com capim improdutivo”. Pecuária é um sistema composto por solo, planta e animal e a exploração dos três fatores deve ser eficiente para que não haja perdas de recursos. Solo exposto ou mal trabalhado, planta desnutrida e com baixo desenvolvimento radicular, animal com baixa eficiência alimentar dado o manejo incorreto das pastagens resultam em atividade emissora de GEE.
 
Lembremos então da diversa gama de tecnologias desenvolvidas para a produção agropecuária. A adoção dessas tecnologias, das mais simples (divisão de pastos) às mais complexas (biotecnologia), é a chave para o desenvolvimento sustentável da atividade pecuária.
 
Um sistema de produção pecuária em pastagens tropicais, quando bem manejado, deixa de ser um problema ambiental e passa a compor parte da solução para as temidas mudanças climáticas. Sistemas solo-planta-animal bem manejados melhoram as características físico-químicas de solo, aumentam o acúmulo de matéria orgânica e água no solo, garantem biodiversidade de micro-organismos e mitigam a emissão de carbono. 
 
Desestimular a evolução da atividade pecuária não contribui com esforço de mitigar danos ambientais. Ao passo que o incentivo à adoção de tecnologia nos diferentes sistemas de produção de bovinos, aumenta as chances de se alcançar o equilíbrio entre a farta produção de alimento e a conservação dos recursos naturais. 
 


*Beatriz Domeniconi é coordenadora executiva do Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS) 

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