Acessei com entusiasmo o teaser da próxima novela da HBO "Dona Beja", a meretriz Ana Jacinto de São José (1800-1873), protagonizada por Grazi Massafera, que estreia no mes.o dia de Iemanjá, dia 2 de fevereiro, de 2026. A notícia foi providencial, visto que há tempos está em pauta o empoderamento, misoginia e o feminicídio. A personagem é um arquétipo contrastante de perguntas e respostas, que a nossa sociedade marrenta, deveria ter urgência em fazê-las.
O curioso é que sua trajetória impulsionou um turismo peculiar à região mineira de Araxá, onde ela fincou sua ascensão econômica através da profissão mais antiga (e não oficializada) do mundo.
Violentada, sequestrada e descartada antes mesmo de completar a maioridade, Dona Beja encontrou cura e superação nas águas termais do Parque Barreiro, localizado numa cratera de origem vulcânica, onde desde 1940 é um complexo hidrotermal famoso por suas águas medicinais e pelo paisagismo de Roberto Burle Marx.
Painéis de azulejo do complexo registram a rotina de skin care de Dona Beja nos banhos de barro e na fonte que leva o seu nome.
Um hábito que manteve seu título de beleza e sagacidade em enfrentar a tensão social para articular com destreza seu interesse em assuntos políticos.
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Mais que providencial, o remake desta 'lenda' brasileira é a retomada do protagonismo feminino, a capacidade de liderança e o poder de uma mulher que, embora tudo conspirasse contra ela, seguiu seu propósito na única via 'barrenta' que lhe restou.
Um dos episódios mais curiosos desta emblemática figura, foi quando uma das esposas ofendidas pelas idas e vindas do marido ao estabelecimento de Dona Beja, lhe enviou um pacote como presente. Ao abrir a caixa de presente, uma catinga sem fim se espalhou, revelando um monte de merda fresca. Dona Beja, sem se alterar, mandou que colhessem as mais belas flores do jardim e as enviassem à esposa de ego ferido. No bilhete, mandou um recado: "Cada um dá o que tem".
Do trauma à cura, Dona Beja foi um modelo do tratamento eficaz dos banhos em águas termais e do barro terapêutico das enriquecidas terras das Minas Gerais.
A cidade de Araxá se consolidou pelo histórico polêmico deste ícone da beleza nacional, que até hoje provoca debates e controvérsias. Afinal, "a beleza provoca ladrões mais do que o próprio ouro", palavras de William Shakespeare.